domingo, maio 3

Paragens de domingo à tarde

É domingo. Pára-me o pensamento. Minto.

Pára-me o querer racional. Contradiz a vontade. Acelera-se tudo pelo mesmo. Se há algo que não pára é o pensar. Tento desligar o botão. A confabulação crónica estende-se a partir dos se's. Demasiadas expectativas findam em demasiadas delusões. Tretas. Logo à partida, a persistência no não ser acelera um mal estar intrínseco. A estratégia é o raciocínio, combinar a agilidade intelectual com o autocontrolo, físico e emocional. Mentir é difícil, não faz parte de mim. Espelho o que sinto, sinto-me invadida pela transparência. Todavia, acabo por perceber que, em sociedade, as pessoas nem sempre dizem aquilo que pensam. Ou sentem. Por vezes, esforço-me por isso. Por não ser Eu. Creio que, por vezes, a vida social sobrepõe-se à natureza de cada um. E isto implica uma sofisticação relacional. O uso de personas tornou-se banal. Uma perversão à honestidade da parceria que se estabelece entre duas pessoas, mas também àquilo que o próprio é. À sua integridade. Páro-me.

segunda-feira, abril 20

Coisas cá de dentro


Apetece-me um beijo. Um beijo daqueles que não despega. Em que sinto o bater o teu coração. O teu respirar. A tua mão a subir por entre a minha camisola, nas minhas costas, apertando-me contra ti. E mesmo com o calor do momento, a minha pela arrepia-se ao teu toque. Não que as tuas mãos estejam frias, porque nunca o estão, apenas porque me fazes sentir, e sentir-te, tão intimamente como se fossemos um só.


Fazes-me falta. Pelos beijos, pelos abraços, enfim, pelo toque. Físico e mental. Por aquilo que me dizes e, na maioria das vezes, por aquilo que não dizes. As palavras que falham entre as conversas que tens são as que mais desejo ouvir. Esses teus silêncios longos em que me perco como se um país das maravilhas fosse; mas nem sempre consigo seguir o coelho. 


Não é a ausência que me atormenta, mas sim o silêncio. Parece um inverno de frio constante e cortante interrompido raras vezes por uns raios de sol. Estes, quando surgem, aquecem e é isso que me faz aguentar o inverno. São duas ou três. De cada vez. E perante o silêncio, o meu Eu não se cala. Creio que é uma espécie de compensação. Há silêncios que falam, mas há silêncios que gritam. O meu Eu grita-me. Esforço-me por o ter em silêncio.


Não podemos comprá-lo, nem fazê-lo voltar atrás. O tempo é contínuo. Assisto aos dias a passar, os momentos a acotovelarem-se uns atrás dos outros e nada. São intervalos de nada interrompidos por umas horas de sorrisos. Genuínos. Os cerca de vinte músculos não se enganam quando o meu olhar encontra o teu. A alegria, mas sobretudo a tranquilidade que me trazes sempre que chegas junto de mim. Faz-me esquecer os intervalos pelo caminho.


E eu, continuo aqui. A caducar enquanto te espero. Mas diz que assim é. Que o carinho cresce com a saudade, que a paixão se incendeia com o desabafo, que a tristeza se dissipa com o regresso. E são as palavras, aquelas, do teu silêncio, que me acalentam no inverno. A certeza que tenho não se satisfaz com o silêncio. Falta a palavra, ou as palavras, apenas um sublinhar do que se sente como genuíno. Fico à espera, uma vez mais, que me tragas esse sorriso.


É à tua maneira. Seguimos o teu plano. Aliás, tu segues o teu plano, eu sigo atrás. Sigo o teu plano, e ainda que não o tenha visto, confio em ti. Sigo os teus timings, ainda que pense que os intervalos pudessem tornar-se mais ricos. Sigo. Apenas sigo. Mas pretendo ir ao teu lado. Sou paciente. Um dia será à nossa maneira, o nosso plano, o nosso timing. Quando esse dia chegar, estou cá para ouvir. Para te ouvir. Todos os silêncios que ficaram pendurados no tempo.


Os meus olhos não mentem. Sou transparente. Nada quis, alguma vez, suprimir ao teu conhecimento de mim própria. Sou o que sou. Apeteces-me e nada mais. A vida tem destes acasos. Tem dias em que tudo de desmorona e tem dias em que os castelos se elevam. E chega a um tempo em que se tem de desarrumar a mente, tirar tudo do sítio e organizar de novo. Arejar. Arrumar as memórias, confiar e apostar. Sem saber, sabe-se.


Que horas são? Chega o momento do desapego. Os intervalos têm hora marcada. Os invernos adivinham-se no calendário. É sempre quando a companhia mais apetece, quando o conforto se torna confortável, que se dá início a mais um silêncio. Um beijo diz tudo e, tem vezes, que para nada chega. Recolho mais umas memórias que me ajudam a suportar o inverno. Acordo e digo: Que memórias vestirei hoje? Fica a expectativa de surgir uma surpresa. Ainda que ausente, aguardo na esperança de novas memórias. Diariamente.

Gosto do inverno, mas não do teu inverno. Preciso de um beijo para acordar, e de um café. Ou de ambos, se forem dados por ti. Um abraço apertado será um bónus. E tu, o que gostas?

domingo, janeiro 27

Carro de Bois

Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois
Que vem a chiar, manhãzinha cedo, pela estrada,
E que para de onde veio volta depois
Quase à noitinha pela mesma estrada.

Eu não tinha que ter esperanças - tinha só que ter rodas...
A minha velhice não tinha rugas nem cabelo branco...
Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas
E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco.

Alberto Caeiro

Decisiveness

«Decisiveness is a very essential quality.
There are many people who are incapable
Of deciding, who go on thinking.
They waste their whole life in thinking
Whether to do this or not to do,
To be or not to be.
And they are always hesitating, they can't act
And without action life is futile.
They can't decide, and without decision
There is no possibility of your growth.
Yes, one should look
At all the possible alternatives
But not for too long.
It should not become a habit.
One should look at all the alternatives
And then one should be able to decide.
One should not wait for a perfect decision
Remember, because in life
There can never be any perfect decision.

I have heard about a man
Who was searching for a perfect wife.
He died unmarried obviously.
When he was dying somebody asked
"You travelled all over the world
You searched for a perfect wife.
Couldn't you find a single woman who was perfect?"
He said,"Yes, I came across a few
But they were searching for perfect husbands!"

If one is a perfectionist
One is doomed to fail.
Perfectionists are indecisive people.
Nothing satisfies them, everything falls short.
Their ideal is too high.
Everything seems to be unsatisfactory.

Decisiveness means knowing
That life is imperfect and life is short
Knowing that we have limitations
Yet we have to decide.
Alternatives are limited, we cannot wait forever.
One you decide then you go wholeheartedly into it
You risk all.
One has to be a gambler
Then only something is possible:
Growth is possible
A new birth is possible, a new being is possible.
Otherwise nothing is possible.
Decisiveness is absolutely necessary.»


Osho

quinta-feira, dezembro 30

o meu, o teu e o nosso

Quer queiram, quer não, acaba por ser um contrato. E não estamos aqui a falar da teoria Do Contrato Social, não vá o Jean-Jacques dar umas voltinhas de agonia onde ele estiver; estamos a falar de contratos de promessa, entre duas pessoas, contratos relacionais. Seguindo o dito popular, falaremos de adultério. As suas alíneas diferem dos restantes, são relacionais e até pessoais; é mais que amor e/ou amizade, envolve uma questão de carácter (e os que dela carecem, bem podem ficar far far far away de mim).
Se assim o é, o rompimento de um contrato, baseado em sentimentos de confiança e na crença (assente nos sentimentos) do que se julga ser verdade, gera, evidentemente, conflitos morais e psicológicos. O descumprimento do presumido pode, com certeza, ser resultado de carências, busca do novo, de sensações de perigo ou de poder, de insatisfação ou até desejos de vingança; porém, se a parte gozasse de carácter, o golpe invisível, mas constante, áspero e inesperado, não se reflectiria no óbvio.
Nas suas raízes latinas, não só o enganar ou o não cumprir a promessa constam nos sinónimos. Também se pode compreender como a venda de alguém ao seu inimigo (e em alguns casos, é esse mesmo o significado que possui); contudo, nesta minha reflexão não se trata mais do que a venda, mas de si próprio, a um outro e ainda marcar aquele com quem tinha compromisso. Como que uma queimadura, a pele psíquica do traído torna-se mais frágil, tem menos camadas para se proteger, o que resulta na diminuição de confiança e num ambiente cujo ar se torna difícil de respirar.
Frequentemente, é o traído quem carrega sentimentos de culpa, não o incumpridor; como se este não tivesse tido outra qualquer solução que não trair, de romper o contrato de tal forma egoísta. Pode até mesmo pensar que para o traidor estar consigo é insustentável; a velha história de "tu és demasiado bom/boa para mim, eu não te mereço" é simplesmente ridículo. Ainda o velho truque, tão extremo que denota (ainda mais) o carácter ignóbil do traidor, mas tão actualmente usado (e até parece que resulta, que eu tenha conhecimento...), de se dizer "não merecias isto que te fiz, até já pensei em matar-me para não «despontar» mais na tua vida". Usei o despontar, porque de facto o que acontece é o mesmo que aquelas plantas parasitas: são pequenas e vamos deixando que cresçam até dar-mos conta que já envolveram toda a casa e que estamos presos nela. Mas afinal, quem é que deixou crescer a planta? Ou neste caso, quem é que rompeu o contrato?
Confesso que em tempos o pensamento acerca do assunto não era tão claro, a percepção das coisas talvez estivesse minado com aquilo que parecia ser, mas não o era. Vamos lá, para que fique então distinto: o meu último desejo para este 2010 é que tenham consciência de si próprios e dos vossos actos... e basta os efeitos secundários dos vossos, não têm que aguentar os dos outros.
Trair não tem nada a ver com a pessoa traída, mas com a falta de carácter de quem trai. E digo isto tendo em conta que podem sempre existir pormenores aqui e ali que despedaçam uma relação que se quer una; todavia, não é neles que vejo o fundamento de tal falha de um para com o outro. Quem trai não consegue assumir compromissos, não tem responsabilidade do que mantém com o outro, nem mesmo consigo próprio; sobressai essencialmente a inexistência de respeito por aquele com quem, a priori, supostamente, partilha. Aliás, diria que é ainda algo mais pérfido, pois obriga o outro a jogar os seus jogos, numa total ignorância, leva-o a participar em esquemas falsos, nas suas mentiras.
Não suporto mentiras, excepto aquelas que considero «boas», como quando dizem que não sabem do jantar surpresa que os restantes amigos estão a preparar para o meu aniversário. Não suporto mentiras pois são essas falsidades que se acumulam à falta de respeito pelo outro, que o ferem e, por vezes, acredito que quem trai nem sequer tem capacidade de entender o quanto faz e o quanto isso magoa. Só me deixa a pensar que quem trai deverá ser alguém über insatisfeito consigo mesmo. A busca de adrenalina, de querer sentir mais e/ou diferente, alimenta, de certa forma, o secretismo e aumenta a infidelidade.
Creio, de momento, que estas pessoas julgam ter tudo controlado, mas são elas próprias que vivem em maior descontrolo; a menos que cresçam, que amadureçam emocionalmente, o insatisfeito, e diria até o infeliz, continuará sempre a fazer o que faz, a trair o outro, pois irá sempre minar as relações que estabelece e se as velhas desculpas resultarem...
No entanto, para que isto aconteça, é necessário que o traído seja alguém especial, i.e., que aceite jogar o jogo proposto, não vá ele perder aquilo que afinal nunca teve. O sentimento de vazio que poderá surgir atormenta o traído; o abandono e a perda daquilo que é, também, ele próprio. Diria que o medo é o que se encontra na base desta «manutenção» da não-relação; aquilo que provoca reside naquilo que foi interpretado anteriormente e sem um novo olhar, nada será diferente.
Bom, eu diria que quem ama, respeita (e, portanto, não trai), mas as minhas premissas serão sempre subjectivas; pelo que deixo à vossa reflexão e interpretação.

quinta-feira, agosto 26

It's all we got.

"I'm coming up only to hold you under
I'm coming up only to show you wrong
And to know you is hard and we wonder
To know you all wrong, we were

Really too late to call, so we wait for
Morning to wake you; it's all we got
To know me as hardly golden
Is to know me all wrong, they were

At every occasion I'll be ready for a funeral
At every occasion once more is called a funeral
Every occasion I'm ready for the funeral
At every occasion one brilliant day funeral

I'm coming up only to show you down for
I'm coming up only to show you wrong
To the outside, the dead leaves, they all blow (alive is very poetic)
For'e (before) they died had trees to hang their hope

At every occasion I'll be ready for the funeral
At every occasion once more is called the funeral
At every occasion I'm ready for the funeral
At every occasion one brilliant day funeral"

The Funeral by
Band of Horses

quinta-feira, agosto 5

sweetest kill

I just wanted sex
but you wanted love
so you gave me romance
and now i'm fucked up.

MEDO

Quem dorme à noite comigo?
É meu segredo, é meu segredo!
Mas se insistirem, desdigo.
O medo mora comigo,
Mas só o medo, mas só o medo!

E cedo, porque me embala
Num vaivém de solidão,
É com silêncio que fala,
Com voz de móvel que estala
E nos perturba a razão.

Que farei quando, deitado,
Fitando o espaço vazio,
Grita no espaço fitado
Que está dormindo a meu lado,
Lázaro e frio?

Gritar? Quem pode salvar-me
Do que está dentro de mim?
Gostava até de matar-me.
Mas eu sei que ele há-de esperar-me
Ao pé da ponte do fim.


letra: Reinaldo Ferreira

segunda-feira, julho 26

Porque esqueceste os meus anos.

Aqui, como noutro qualquer lado.
Talvez mais aqui, onde me encontro sentada;
talvez só agora possível e não no passado.
Apresenta-se a vida, por momentos, fatiada.

Já dizia o poeta, que vem não sei de onde e dói não sei porquê.
Porém, eu sei onde mora e está onde qualquer um vê.
Encontro-me aqui, à espera,
encontro-me só, no mesmo lugar,
encontro-me como quem desespera,
que a saída não chegue tão devagar.

Foram tempos nefastos,
Foram tempos de indiferença,
foram tempos de esperança
e hoje até ignoro a sentença.

Tinha prometido a mim própria
A permanecer sem ambiguidades
Mas bastou uma brisa do teu cheiro
Para renascerem estas saudades.
Pergunto-me se será verdadeiro
se se manifesta como o sentia...
Dizem-me que a resposta é evidente:
a chama arde, mas não brilha...

E mais poderia dizer,
se não fosse nosso segredo.
Eu porque as não deveria saber,
tu porque nelas vives com medo.


Janeiro 2010

sexta-feira, junho 18

Saramago.

"Eu, no fundo, não invento nada. Sou apenas alguém que se limita a levantar uma pedra e a pôr à vista o que está por baixo. Não é minha culpa se de vez em quando me saem monstros."

"Onde estava todo esse dinheiro? Estava muito bem guardado. De repente, ele apareceu logo, para salvar o quê? Vidas? Não. Apareceu para salvar os bancos."

"Há esperanças que é loucura ter. Pois eu digo-te que se não fossem essas já eu teria desistido da vida."

"Se tens um coração de ferro, bom proveito. O meu, fizeram-no de carne e sangra todo dia."

"Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara."



José de Sousa Saramago
Golegã 1922 - Lanzarote 2010
Prémio Camões 1995
Nobel da Literatura 1998


sábado, fevereiro 6

III

Pergunto porque desejas, se o apetite que brota é infausto.
Vivo ou morto, nada trará de volta aquilo que te perdi.
Na última parte, enganas menos o outro do que a ti.

SemVagar.

Agendei o meu tempo em torno de te ver.
Esqueci-me que o desejo distorce o acontecer.
A razão espera-me sempre na esquina do saber.
Em intervalos de tempo, inconscientes ao meu ser.
Cada vez que lá tropeço, crescem sensações de poder.
Acordo só para mim, um pouco antes de adormecer.
Que se a noite permanecer, contra o dia o querer.
Apelo à ruína e em motim afirmo: vai-te f*der!

Delusão.

Vens em pezinhos de lã, entre delusões, tecer ideias;
(re)nascem vontades e para quê;
se ambos sabemos que o limite vai de um ao outro.
Remexem-se estórias e a história,
nada do que já foi poderá de novo ser.

Preciso de ti, quando estás na outra margem.
Vem a mim, ao meu colo, eu te aconchego.
Sopro as nuvens, despeço a névoa;
não mais a água é turva para que a atravesses.
Estendo-te a mão, reconheces a direcção a seguir.
Porém, basta-me saber que vens.

Não esperes por mim, só pelo meu desejo;
chega-te metade, pois não suportas o todo.
Nunca suportarás, enquanto a fuga estiver marcada;
Nunca saberás, se o tempo não entorpecer.
Borda-se a vontade, descose-se a verdade.

Não sei a que te referes ou quiçá a reflexão é curta.
O reflexo, não o confesso como meu.
Lembro-me de quando em vez o aluir do disposto;
e sigo saltando, entre as pedras que bulem.
É que lá no âmago, o aflito olha-me e eu...
Desvio o olhar com vergonha de nele me esquecer.

Pedras no caminho? Não as guardo, como o poeta;
não é meu desejo construir um castelo.
Amontoam-se, na minha sombra e quando delas carecer,
com precisão, no tempo e no espaço,
o fito será certo e insignificante a conclusão.

Valha-me o externo, pois no íntimo o vazio é senhorio.
Na sede de ser, vampiro me pareço.
Porque não posso estacar ou em troca o brilho se perde.
Desconectar-me em pedaços, consciência tenho do que sou.
Preciso de ti ou de outra personagem, tanto faz;
na verdade, apenas que me faça sentir o agora.

São filhos da puta que andam por entre a plebe;
se cruzam no ar que respiro e o empobrecem;
pertencem-lhes Selfs em ilhas, que se afastam.
No limite, interrompe-se a função do seu X;
de que vale a casca se as lagartas apodrecem o tutano?

terça-feira, novembro 3

RIP LÉVI

"Dirigimo-nos para uma espécie de civilização à escala mundial (...) Estamos num mundo a que já não pertenço. Aquele que conheci, aquele de que gostei, tinha 1500 milhões de habitantes. O mundo actual tem seis mil milhões de humanos. Já não é o meu."

"We can understand, too, that natural species are chosen not because they are 'good to eat' but because they are 'good to think."

"Language is a form of human reason, which has its internal logic of which man knows nothing."

"The wise man doesn't give the right answers, he poses the right questions."

"Gifts make slaves."

Claude Lévi-Strauss
28 Nov. 1908 - 31 Out. 2009

domingo, novembro 1

Fez hoje anos.

Perguntar-me-ão, talvez, mas o quê não direi.
O plasma corre num tom pastel em volta do meu ente, daquilo que amei.

Longo foi o tempo, tingido de vontade.
Vassala de uma compulsiva agitação residente no id, na tua saudade.

Fez hoje anos.

E decerto, para esta data, não acordarás.
O soberano presente plasma as migalhas do que de mim ficou, lá atrás.

Como todas as coisas, esta mais uma.
Logro-me numa postura atónita, palpita-me o dentro por causa nenhuma.

Fez hoje anos.

Sei que antes já foste e agora também vais.
Se me desses a escolher na estreia, escolhia só a foto porque dura mais.

sábado, janeiro 31

De verde a podre.

As pessoas são complexas. Pequenos ou grandes puzzles, com dificuldades mais ou menos agravadas. Por vezes, faltam-lhes peças, algumas partículas da constituição de um ser no seu todo. Ou será que nos faltam a nós e à nossa percepção? Limitados à nossa maneira, à nossa visão do exterior, interferindo no modo como compreendemos os outros, vimo-los como incompletos, incoerentes, indefinidos, através do filtro individual que cada um de nós possui.
A incompletude pode percepcionar-se como um sinónimo de imaturidade, de uma falta essencial ao sujeito no que respeita ao seu desenvolvimento. Tendo em conta as ideias evolucionistas do nosso tio Darwin, compreende-se a imaturidade como um caminho para atingir a maturidade, atingir a conclusão, completar o puzzle. Neste sentido, o processo de “obtenção” da maturidade parece tanger-se de progressividade, em que só se atinge o final com a chegada ao fim da linha. Assim, a maturidade seria uma meta, mas.. e depois? A maturidade, no meu entender, não é um processo deste tipo, é um processo de (des)avanços, como a regressão na adolescência de que Blos nos fala e defende como algo necessário. Andar para trás e para a frente, desviar-se para os lados, pular de vez em quando, faz-me lembrar aquele jogo do «peixinhos do mar, podemos passar?” em que andávamos o mais possível sem que alguém nos visse, mas se tal sucedesse, teríamos que reiniciar o percurso. O processo de maturação é assim. É um processo por etapas, ora se passa à primeira, ora à segunda, ora temos que ir a recurso ou começar de novo, voltando atrás, solidificar as bases necessárias para a etapa seguinte, e isto não deve ser visto como negativo. Cada etapa tem as suas características e objectivos, funcionais e adaptadas ao momento em que se desenrolam. Deste modo, a criança, comparativamente com um adulto, nunca podem ser vista como um ser imaturo, nem mesmo os adultos podem ser apreciados como processos de maturação acabados. Estamos sempre a aprender ao longo da vida, logo, pondero a maturidade como algo a ser percebido no contexto da realidade de cada sujeito, se as habilidades que possui preenchem os requisitos das tarefas que, a priori, deve concluir. Apressar o desenvolvimento dessas habilidades por se achar que se é imaturo, é tirar o sujeito da sua própria realidade, da sua confort zone, e isso poderá perturbar todo o restante processo de maturação no sujeito.
Por outro lado, a imaturidade implica uma certa dose de egocentrismo. Ao compreender que o processo de maturação se desencadeia com o aumento da idade, percebemos que a criança será menos madura que o adulto (ou, pelo menos, assim é suposto), como já dissemos anteriormente. A maturação ocorre em diversas áreas, nomeadamente ao nível cognitivo e emocional, dois campos importantes no desenvolvimento do sujeito, quer dum ponto de vista social, quer dum ponto de vista mais individual. Todavia, ambos roçam nos relacionamentos e o modo como os sujeitos actuam na vivência com os outros. Espera-se que com o crescimento (em aumento de anos), este de adapte à sociedade, adoptando e agindo de acordo com os padrões esperados nesta, tornando-se, de certa forma, um sujeito mais rígido e menos criativo. A imaturidade seria aqui algo benéfico para a vida do sujeito, no sentido que tornaria (ou deixaria) os sujeitos actuarem de modo mais espontâneo em vez de se tornarem cada vez mais conformados às regras da sociedade. Este aspecto deixa-me a pensar que a maturidade é, do ponto de vista social, um conceito que se traduz pelo crescente conformismo e repressão do interior, do Self, do sujeito, pois aqueles que se manifestam mais emotiva e espontaneamente são sempre vistos como sujeitos mais desadaptados e, lá está, imaturos. A maturidade seria o conformismo às normas sociais, mas gostaria que fosse compreendida como um “poder” do ser humano em superar essas normas e a pressão que os semelhantes fazem para que as adopte, isto é, através da adaptação à sociedade, o sujeito pensasse e actuasse sobre ela, enlevando-se a si próprio. Nem a maturidade nem a imaturidade seriam exclusiva e unicamente boas para o sujeito, pelo que entendo que um misto das duas seria o ideal. Um misto das duas não com o objectivo de tornar a inconstância constante, mas tingindo o percurso do sujeito com avanços e recuos saudáveis ao seu desenvolvimento. Diria que as pessoas que atingem esta fase no processo maturativo são capazes de afrontar a mentalidade dominante de uma forma sublime e de assumir o sofrimento de uma forma quase profética e solitária. Lembro-me de Martin Luther King Jr., esse eterno ser nascido a 15 de Janeiro no ano da Grande Depressão, e penso nele como um elemento inspirador, de tranquilidade. Respiro fundo. É que ouvir vozes de iluminados como este, é agora e sempre um privilégio, pois era (e será) uma voz autónoma e insubmissa relativamente aos acontecimentos do seu tempo; um ser independente da aprovação dos aplausos, mas potenciado por eles; um homem guiado pelos seus princípios pessoais, contudo universais e persistentes na duração.
Penso que o melhor que se pode ensinar a alguém é a ser como é, a conhecer-se; ajudá-lo a desenvolver um pensamento peculiar e autárquico e isto é, no meu entender, a maturidade na sua forma estável, consciente e positiva para o sujeito. Maturidade no sentido de equilíbrio resultante de constantes desequilíbrios, da constância entre etapas com toques do seu contrário; uma forma metódica de se fazer o que se tem a fazer; enquanto que a imaturidade resulta de esforços heróicos derivados de abordagens criadas mais ou menos da fervura da situação. A maturidade é como a inteligência, ao aceitar que há várias e diferentes etapas para a sua estruturação, compreendemos que não existe um único teste capaz de a avaliar na sua globalidade. Assim, o sujeito só será inteligente (e podemos alterar para maturo que o raciocínio é o mesmo), consoante a área, a situação, em que for testado. Continuo, porém, a defender a utilidade dos traços imaturos, aceites no seu contexto, perspectivando a positividade dos mesmos para a vida do sujeito e não pensar que são apenas ideias desadequadas (embora, por vezes, a roçar a genialidade) e que devem ser censuradas. Uma vez que a natureza humana busca o prazer (ou a promessa dele), o sujeito não está, de modo algum, a violentar essa mesma natureza ao adaptar o seu génio a um equilíbrio adequado. Todo o sujeito precisa de conhecimento de si próprio e do mundo para que nele se estabeleça conscientemente, para que a maturidade se perceba como um processo transcendente.
Penso que é essencial observar os outros, relacionarmo-nos com eles, consciencializarmo-nos das semelhanças e das diferenças que nos unem e nos separam dos outros. A pessoa imatura não é capaz de um pleno convívio com as outras pessoas, de se adaptar, de vestir a posição deles, de ter empatia. Deste modo, esta pessoa não só não conhece os outros, como não se conhece a si própria, não se esforça sequer por isso, não se empenha, não luta nem dá luta, não cresce e só se lamenta. Lamentar no sentido de que a sua visão é tão centrada que tudo, o que possa acontecer negativamente, está fora de si e é responsabilidade do outro, da vontade exterior. Se assim é, não precisa de fazer nada, torna-se passiva e espera que o outro, o exterior, se modifique, não havendo uma maturidade (emocional) que torne consciente a igualdade entre os seres e que permita a noção do outro como um ser semelhante dotado de desejos, de vontade e de razão. Dentro da sua imaturidade, são sujeitos tão “controladores” que temem perder o seu lugar, a sua posição relacional, que é sinal da sua identidade, pois, no fundo, nem a própria pessoa acredita em si, não tem definida a sua força e a sua importância no mundo relacional e precisa que alguém lhe mostre isso, frequentemente, pela submissão, pela cedência, ao seu ser.
No que respeita ao amor, posso afirmar, com certeza, que a imaturidade está mais do que presente, considero mesmo até residente permanente, numa casa que é a relação a dois. A adaptação à realidade que é o outro, a consciência desse ser, as suas virtudes e os seus limites, os defeitos que o tornam especial, mas também um ser diferente daquele que nós somos e ainda bem. O outro deve completar-nos e não ser um reflexo do que somos. Este pensamento lembra-me Montesquieu quando disse «é mais fácil conquistar do que manter a conquista». Porque dá trabalho. Dá trabalho essa ligação e fazê-la funcionar quando nem todo o cenário que a comporta é perfeito. O amor imaturo fica fixado na fase do deslumbramento, na chamada lua-de-mel, não avança ou deixa correr o sentimento com a convivência, fica alheado e numa posição narcísica. É uma relação de ego com o ego, em que um desconhece o outro, renuncia aos sentimentos, ignora que estes não sejam estáticos, mas sim dinâmicos e susceptíveis de crescer ou diminuir conforme a forma que são cultivados pelo relacionamento. Se o amor se torna divino, assente numa base de fantasia, e o deslumbramento permanente não é mais que uma ilusão que termina em nada. A pessoa consciente e numa fase de maturidade estável sabe que, como todos os processos de desenvolvimento (e o amor é um deles), a relação amorosa se constrói, pouco a pouco, dentro do possível a cada momento, contornando e resolvendo os obstáculos. Por outras palavras, existe uma estabilidade emocional e matura que se mexe entre progressos e resoluções, pequenas voltas e compreensão do outro, mas também de si próprio. A fase de ligação não é uma simples fase de desejo ou de romantismo, é uma fase de adaptação e partilha. As pessoas imaturas, contudo, querem apenas receber, sentir-se desejadas e relacionar-se unicamente numa forma de satisfação da necessidade afectiva, com a qual não conseguem lidar. O outro é visto como um suporte emocional, uma injecção de satisfação ao ego. O sujeito imaturo tende a introduzir no outro aquilo que ele próprio é, como se tivesse uma relação consigo, pelo espelho, uma adoração de si próprio e, por extensão, a quem lhe dá. Todavia, sabemos que os sentimentos que, no geral, caracterizam as relações (amorosas, sexuais, de amizade, etc.) actualmente, são sentimentos que não têm os dois v’s, como eu costumo dizer: o de vai e o de volta, ou seja, não são recíprocos.
Hoje em dia, os sujeitos esqueceram-se destas componentes relacionais, que são a partilha e a reciprocidade, e a falta que fazem traduz-se na observação das pessoas num simples passeio à rua. Fico inquieta ao pensar neste assunto, no crescente buraco entre a inocência em demasia e o demorado egocentrismo; um buraco vazio, embora centrado num equilíbrio, no qual ninguém lá faz vida. É que há pessoas que passam de verdes a podres, nunca chegam a ficar maduras.. e depois temos que as mandar para o lixo.

segunda-feira, março 24

Num tom "deslimbrado".

Lamentosas as noites perdidas
Na vaidade dos dias,
Desabrocham novelos de vidas
Olham a saudade que perdias.

Conta-me os dias em forma de tons
Retrata-me em paisagens coloridas,
De nada me lembro além de sons
E feridas na memória sentidas.

É meio da noite e abrem-se-me os olhos
Arrepios na pele são mais que mil,
Sinto o bater da alma aos folhos
A vida a fugir-me para um funil.

A que horas sais da minha mente
Diz-me que estou farta de te ouvir,
A voz dói, deixa-me dormente
Tão longe de doer, mas perto de rir.

Cá dentro, olho o tecto do mundo
Lá fora, as unhas em tom escarlate,
Desafio fios de história a sair do fundo
Antes que a saudade me mate.


15 de Março de 2008